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Não demonstres!

Há muitos anos, per­tenci a uma banda chamada Neomono­var, que é a marca de uma pílula anti­con­cep­cional. Ape­sar do nome, éramos bas­tante cria­tivos, e a prova é que alguns viriam a inte­grar pro­jec­tos de recon­hecido mérito, como os Fale­cido Alves dos Reis, ou mesmo os Alu­cina Eugénio.

Naquela altura, porém, era notória a nossa incon­sistên­cia artís­tica. Reivindicávamo-nos de um género a que chamá­va­mos “som da frente” e, quando tín­hamos com­posto duas músi­cas, aceitá­mos o con­vite para tocar na festa de pas­sagem de ano de um bar em Braga.

 Metemo-nos a ensa­iar dia e noite para o grande con­certo, no entanto, chegado o dia, par­ti­mos para o local oprim­i­dos pela sen­sação de uma grande respon­s­abil­i­dade. O “som da frente” não era um género fácil, e sus­peitá­va­mos que as audiên­cias min­ho­tas não estivessem famil­iar­izadas com as últi­mas tendên­cias lon­dri­nas. Para dizer a ver­dade, aliá­va­mos o pedante receio de não ser­mos com­preen­di­dos ao pânico infan­til de pis­ar­mos um palco pela primeira vez.

Chega­dos ao bar, e para acal­mar estas angús­tias, desatá­mos a beber. Segundo o nosso téc­nico de som, o álcool era bené­fico para a cria­tivi­dade da banda, ainda que não sufi­ciente. Um cock­tail de dro­gas e bebidas fora judi­ciosa­mente con­ce­bido para induzir no artista do “som da frente” o ade­quado estado de con­sciên­cia. Dro­gas leves, diga-se, ainda que até as coisas leves pos­sam pesar como chumbo, se as quan­ti­dades forem descomunais.

 O prob­lema foi que o con­certo nunca mais começava. Está­va­mos pro­gra­ma­dos para entrar em palco logo a seguir ao brinde da meia-noite, mas tudo se atra­sou. A mul­ti­dão saltava ao som das músi­cas brasileiras típi­cas dos reveil­lons, nunca mais éramos chama­dos, e íamos bebendo e fumando charros.
 Na época estava na moda uma expressão que se usava quando se atin­giam esta­dos muito alter­ados por efeito das dro­gas: “Não demon­stres!” O equiv­a­lente, nos nos­sos dias, à neces­si­dade de fin­gir alguma com­pos­tura, para não ser punido pelos mer­ca­dos. “Não demon­stres” era o que naquela aflição dizíamos uns aos outros.
 Eram 4 da manhã quando o con­certo começou. Cam­baleá­mos até ao palco. Ali estavam, os Neomono­var. Kim Coutinho na bate­ria! Eduardo “Búfalo” na gui­tarra! Nando Rocha e Manuel Carvalho nas outras guitarras! Paulo Moura no baixo! Aplausos.
 Cada um fez soar o seu instru­mento, mas aquilo não eram as músi­cas que tín­hamos ensa­iado. Ape­nas sons desconexos. As luzes incidiam-me nos olhos, eu não con­seguia lembrar-me onde estava, não via nada, excepto as expressões de ter­ror dos meus com­pan­heiros. O Nando aproximou-se de mim e gri­tou: “Não estou a ati­nar! Varreu-se-me tudo! Não sou capaz de tocar nada!”
 E não tocava nada, de facto, emb­ora o con­certo, de alguma forma, con­tin­u­asse. O “Búfalo” andava às voltas no palco como um sonâm­bulo. Colava-se a cada um de nós e sus­sur­rava ao ouvido: “Não demonstres!”
 De repente, o Kim levantou-se. Um homem, na plateia, estava a meter-se com a sua namorada, acred­i­tou ele ver. Cor­reu para lá e espan­cou o abu­sador. O con­certo não parou. Os segu­ranças puseram fim à escara­muça, o Kim regres­sou à bate­ria. “Não demon­stres!”, líamos nos lábios do “Búfalo”. “Não demonstres!”
 Tocá­mos as duas músi­cas mis­tu­radas, sem parar, e como o público pedisse um “encore”, inter­pretá­mos uma ter­ceira, inven­tada no momento. No fim, sem perce­ber­mos porquê, recebe­mos um grande aplauso. Seria de troça? De pena? Ou ter­e­mos mesmo con­seguido não demonstrar?

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